Dieta

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A festa ainda bombava, mas Jonas praticamente dormia em pé. Sua namorada agarrou-o pelo braço, pagou as duas comandas e saíram. Na rua, ele confidenciou “Tô podre de sono.” Ela foi à loja de conveniência do posto de gasolina onde o carro estava estacionado e comprou um Rufles grande: “Ó, pra tu não dormir.” Continuar lendo »

Dor

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A porta prensou meu dedo médio. Doeu. Puta que pariu como doeu. Em vez de arrastá-la pela maçaneta até fechar, coloquei a mão direita na madeira e puxei, de costas, já adiantando o próximo passo. O vento encanou no corredor. Foi muito rápido, não sei exatamente como descrever a fração de segundo. Continuar lendo »

Cafeína

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No sonho, a Laura e eu passeávamos de mãos dadas por longos e largos corredores duma loja de departamentos. As roupas dela eram bem anos 60: vestido azul marinho com bolinhas brancas, o cabelo imóvel descia até o início do rosto; luvas bege completavam o que lembro do seu visual. Olhávamos cadeiras de vime, baús, mesas de centro, armários e outras coisas que não consigo descrever, apenas sei que estavam lá. Tons marrom-envernizados imprimam ar rústico ao lugar e estantes de madeira compartimentavam o infinito. Continuar lendo »

Injustiça

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Até entendo essa raiva do cafajeste. Te achou usada, traída, humilhada, né? Burra por ter se entregado a uma relação que só existia na tua cabeça.

De nada adianta tentar destruir a reputação do cara: só vai deixá-lo mais atraente aos olhos das tuas amigas. E, na boa, tu sabia desde o início, mas acreditou que por ti ele mudaria.

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Caso pensado

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Tu já cansou de namorar galinhas, cafajestes, sem-vergonhas. Gastou muito dinheiro com terapia, chorou milhares de vezes a mesma história para as amigas, ficou rabugenta aos vinte e poucos de tanto reclamar. Aí se dá conta que o sofrimento é resultado das tuas escolhas.

E resolve tentar com o bonzinho.

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Convicção

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É bom ser hipócrita! Um dos poucos prazeres (talvez o único) que a vida em sociedade não nos obrigou a gozar escondido, nem impôs regras de etiqueta. Na real, a hipocrisia deu a volta no discurso e se fantasiou de educação. Quanto mais civilizados, mais falsos podemos ficar. Aí todo mundo aceita a obrigação de elogiar publicamente nossa gentileza.

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Com que roupa ela vai?

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Toda mulher afirma se vestir para as outras mulheres. Nem o mais tapado dos machos acredita; muito menos ousa discordar.

Elas conseguem fingir orgasmos; não sinceridade. Pensam nos enganar —  na real, escolhemos evitar frustrações (não lidamos bem com isso); preferimos desconhecer o que a namorada pensa: aí, quando o amor acaba, a gente se faz de vítima. Continuar lendo »

Cargo vitalício

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Ser Filho é destino, é a vida de presente, é herança genética, é o único jeito, é bom e ruim.  Também deveria ser profissão, reconhecida no Ministério do Trabalho, assim como Metalúrgico, Dona de Casa ou Prostituta.

Filhos têm direitos e deveres explícitos nas entrelinhas — igualzinho a Publicitários e Jogadores de Futebol. Precisam cumprir horários para acordar, estudar, almoçar e ir dormir (pelo menos no início da carreira), devem se comportar bem e exercer suas funções em casa, a sede da organização familiar.

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Oxalá

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Eu nunca disse que amo Meu Pai. No último aniversário do Velho escrevi até carta, pra dar com o presente. Lembrei uma infinidade pequena de motivos que me fariam querer ser seu filho mais uma vez — caso Deus me obrigasse nascer de novo. Coloquei num envelope todo branco, rabisquei “De: Lisandro / Para: Aroldo” com minha letra torta e deixei sobre a mesa da cozinha, depois Dele já ter ido dormir.

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Casa de família

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Sempre que visito alguém, reparo na casa. Olho tudo quando não estão me olhando. Testo meus preconceitos e imagino o perfil dos moradores.

Se o chão é impecavelmente limpo e os móveis estão livres da poeira, a dona não permite que os filhos saiam na rua de qualquer jeito. Se o homem lava o carro na calçada, ele evita terceirizar responsabilidades. Se o chão do banheiro está seco, a fêmea conseguiu doutrinar os machos.

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Não faz cara feia pra mim, mano

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“Dá um reau aí, dá um reau aí” ouvi a voz malandra dizer quando caminhava pelo centro. Me esquivei,  encolhi os ombros e balancei a cabeça dum lado pro outro. O “mano”, cheio de gíria nos gestos, apontou o dedo na minha direção e resmungou, encarando: “Capaz que tu não tem”. Por uma fração de segundos ficamos frente a frente; desviei o olhar e segui meu rumo.

Óbvio que eu tinha R$ 1,00; apenas não quis contribuir com sua vagabundagem.

Preconceito da minha parte? Com certeza.

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Encontrei um meio

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Não assisto TV. Faço parte da Geração Y, da galera hype educada em frente ao computador.  Sou contemporâneo de quem não consegue ter uma dor de barriga sem contar pra todos os seguidores no Twitter; de quem só conversa via instant messenger, independente dos amigos morarem na mesma rua ou trabalharem na mesma empresa; de quem prefere assistir à vida acontecer pela janela do You Tube.

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Todo homem merece

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Mulheres são chiliquentas. Isso é fato. Duvido alguma representante do sexo feminino querer cansar a beleza discutindo um assunto tão anos 90. A mulher se conhece bem, se descobre assim ainda menina, antes mesmo de sentir os seios crescerem e de compreender porque os guris a irritam tanto. Ela aceita os próprios acessos de descontrole como característica da sua natureza. Não nega, não luta contra os instintos, não tenta disfarçar. No máximo pede desculpas depois que a raiva passa — o que não significa arrependimento.

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Sem palavras

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Sempre quis ser escritor. Desde pequeno sentia uma necessidade enorme de me expressar através do texto. Eu era um guri praticamente mudo, tinha apenas um amigo, quase não saía de casa. A lapiseira da Faber-Castell com grafite 0,5 falava por mim enquanto o papel me fazia companhia.

Aos poucos, a necessidade foi se transformando em prazer, mas, estranhamente, passei a lutar contra esse desejo. Desperdicei boa parte da vida arrumando desculpas para não escrever. Cansei de passar roupa, organizar gavetas, lavar um carro que sequer podia dirigir, devorar todo e qualquer livro que aparecia na minha frente. Continuar lendo »

Ingresso

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Amo Rock n´ Roll. Aprendi a gostar da coisa ao descobrir que Kurt Cobain era canhoto e melancólico como eu. Hoje, tento me vestir como um rockstar, imagino que sou o quinto beatle quando canto “Don´t let me down” no karaokê, me comportei como uma vadia ao ver o carro que levava o Oasis para o Gigantinho passar ao lado do meu na Avenida Goethe, destruí o melhor tênis que tinha pulando no barro feito um mangolóide assistindo ao show do The Killers, passo horas na internet procurando músicas e bandas novas enquanto deveria estar trabalhando.

O rock mexe com a minha cabeça. Não apenas por me permitir ser um eterno rebelde sem causa, mas principalmente pela incoerência. Que outro gênero pode se misturar tanto com estilos diferentes sem perder a identidade? É só ouvir qualquer banda Indie ou de Samba Rock para entender do que estou falando. E tem também a guitarra, feita para acompanhar letras que falam de sexo, drogas e liberdade sem responsabilidade, mas que casa tão bem com poemas de amor à moda antiga. Continuar lendo »

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